Crónicas de uma Leitora: ESPECIAL NATAL | CONTO: Telhados de Natal | LILIANA LAVADO

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ESPECIAL NATAL | CONTO: Telhados de Natal | LILIANA LAVADO

Telhados de Natal

um conto por Liliana Lavado
 

Este ano foi uma merda. Ou antes, foi um ano em que eu fiz muita merda!
É suposto isto ser um exercício de escrita franco e genuíno, daqueles em que o objectivo é o crescimento pessoal, onde abandonamos medos, preconceitos e afins, abraçamos os defeitos (coisas menos boas chamam-lhe os optimistas); uma daquelas terapias passo-a-passo, tipo alcoólicos anónimos, mas menos interessante, porque essa gente sabe como se vive uma vida em festa (a foda é a ressaca!) e nós depressivos crónicos, muito pelo contrário, só sabemos como se vive uma vida em ressaca (e a puta da festa nem vê-la!).
O meu nome é Amélia, e embora não seja suposto estas linhas serem lidas por mais ninguém, ter o meu nome aqui pareceu-me indispensável porque acredito que foi com ele que começou a minha personalidade depressivo-dramática. Amélia. Améééliiiiaaaa. Impossível não concordar que a minha mãe fez a escolha perfeita quando o escolheu. É de facto o nome para um espírito inconstante num corpo descoordenado; um par de olhos alienados, uma cabeleira desgrenhada, unhas roídas até ao sabugo, sorriso condescendente, voz monossilábica... pelo menos foi até ao dia que o meu cérebro fritou.
Qualquer ‘alguém’ que saiba alguma coisa sobre depressão, sabe que quando ignorada, é só uma questão de tempo até o sujeito deprimido (i.e. Eu) entrar em curto-circuito. Tal como num bom livro, chega o dia que não é como todos os outros, os poucos neurónios saudáveis que restam torram e então uma destas três coisas acontece: cenário 1, suicido; cenário 2, assassinato; cenário 3, hospício.
Eu quis ser especial. Consegui. Criei uma simbiose perfeita dos três cenários de horror.
Cenário 1, suicido. Um observador mais desatento classificaria o meu suicido apenas na forma tentada (a julgar pelas cicatrizes nos meus pulsos e o facto de continuar a respirar) e poderia considerar que falhei; mas o corpo foi verdadeiramente a única coisa que sobrou. Já não existo naquela que era a minha casa, não existo naquele que era o meu emprego, não sou a cara-metade de nenhum homem, nem a dona do meu gato, nem amiga dos meus amigos... pronto, talvez último ponto nunca o tenha sido, mas até esse dia pelo menos dava-me ao incómodo de tentar fingir que era.
Cenário 2, assassinato. Evaporei-me numa explosão magnifica que dizimou a imagem que toda a gente nesta terra tinha de mim (os que sabiam o meu nome, quem eu era, ou pensavam/imaginavam que me conheciam). E com isso, assassinei todos eles porque ninguém sobreviveu ao evento; hoje nenhum existe na minha vida. Para o crime apenas usei a verdade, não foi premeditado e a arma apenas de oportunidade, mas ambos foram perfeitos.
Cenário 3, hospício. Poderia ter sido o Júlio de Matos, ou outro qualquer, mas a casa dos meus pais pareceu-me melhor, mais calmo e saudável porque fica no campo. E é aqui que estou nesta história, dois dias depois de ter enfiado numa mochila os meus livros preferidos, no espaço que sobrou umas mudas de roupa; pendurado a mochila ao ombro; mandado comigo e com ela para um avião; chorado baba e ranho; implorado às hospedeiras por só mais uma garrafinha-miniatura de qualquer líquido que contivesse teor de álcool (as baixas pressões baixam proporcionalmente o meu nível de exigência por qualidade); incomodando de forma visível vários passageiros do mesmo voo; continuando a implorar por mais um bocadinho de álcool, para no fim descobrir que as hospedeiras não se importavam com o meu desconforto como eu não me importava com o dos restantes passageiros.
Fui recebida por um pai e uma mãe de sorriso no rosto e braços abertos, as únicas duas pessoas clinicamente sãs na minha família, numa casa que mais se assemelha a um hotel e recheada com demasiadas decorações de Natal. O meu quarto no topo de uma das torres, tal e qual Rapunzel, demasiado pequeno e sombrio para qualquer outra pessoas que não fosse eu, continuava com os mesmos tons verde e bege nas paredes, as mesmas madeira velhas, estantes empenadas, gavetas que não abrem, portas que não fecham, tudo à espera do meu regresso como se nunca tivesse havido dúvida de que ele iria acontecer. O quarto era como os meus pais, e o resto da família, todos lá para o que desse e viesse, nenhum deles surpreendido por me acolher de volta.
Saí pela janela e sentei-me no telhado. O resto do mundo podia estar a mudar a cada minuto, mas não neste sítio. O mesmo cenário de Natal de todas as minhas memórias de Natal. As luzes, os brilhantes, os cintilantes, os vermelhos, castanhos, verdes, dourados, as árvores, as estradas a adormecer, os cheiros das lareiras, nuvens em formas de animais pela imaginação.
Nos escassos minutos de dia em que o sol e a lua cruzam olhares, o vilarejo que me viu nascer e a tentar crescer a cada dia que se seguiu a esse, era o cenário perfeito do Natal. Sem as vozes irritantes que me vinham a ensurdecer desde o tempo que ali tinha estado pela última vez, há demasiado tempo para valer a pena convertê-lo em anos, o meu espírito parecia ter novamente espaço para existir no meu corpo sem necessidade de se encolher ou lutar por ar para sobreviver.
Talvez seja verdade o que ouvi dizer, sobre os momentos em que precisamos de abrir mão de algumas coisas, de destruir, para criar espaço para tudo o que realmente somos poder existir.
Reparei que finalmente já não era enxovalhada entre um ruminar do passado e um imaginar do futuro, remorsos e terror, perdas e possibilidades. Estava de volta, presente, era o momento para o escrever.
Enquanto via o sol a desaparecer, lembrei-me de uma história contada por um índio que não tenho a certeza se foi realmente ele quem me contou ou se fui eu mesma quem inventou o índio (houve uma altura em que as hospedeiras de bordo se importavam com o meu bem-estar e não sabiam da medicação que eu também trazia no estômago). Nessa história, o ancião de uma tribo contou ao pequeno índio sobre uma batalha que decorre dentro de todas as pessoas. Ele disse, ‘Meu filho, a batalha é entre dois lobos, eles vivem dentro de todos nós. Um deles é tristeza, arrependimento, arrogância, condescendência, culpa, ressentimento, mentiras. O outro lobo é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, compaixão, bondade, verdade.’ O pequeno índio pensou sobre a batalha e perguntou, ‘Qual é o lobo que ganha?’ O ancião respondeu simplesmente, ‘Aquele que alimentares.’
Com o início da noite, o sino da igreja fez-se ouvir, o silêncio ecoou as badaladas pelos telhados de Natal. Pensei mais uma vez sobre o que fiz, em mim, nos lobos.


Sobre a autora
 
 Liliana Lavado é natural de Estarreja, licenciada em Gestão de Marketing pelo IPAM, com uma especialização em «Strategic Marketing in Action» pelo IMD na Suíça. Viveu em Lisboa durante 7 anos e vive actualmente na Suíça. A sua carreira profissional tem passado pelas áreas logística e marketing operacional em diferentes multinacionais, como a Nespresso. Começou a escrever quando estava na faculdade e, depois de repetidas visitas a livrarias sem encontrar nenhum livro que lhe apetecesse ler, resolveu que o melhor a fazer era pôr mãos à obra e escrevê- lo ela mesma.

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