Crónicas de uma Leitora: Só o Tempo Dirá | Jeffrey Archer | Bertrand | Opinião

domingo, 27 de março de 2016

Só o Tempo Dirá | Jeffrey Archer | Bertrand | Opinião


Primeiro volume da série épica que narra a vida de Harry Clifton desde os anos 20. Harry nunca conheceu o pai, que morreu na guerra, e é criado pelo tio nas docas. Uma inesperada bolsa de estudo faz com que a sua vida mude radicalmente. Já adulto, descobre a verdade sobre a morte do pai, mas também surge a dúvida de quem era efetivamente o seu pai. Harry terá de escolher entre ir para Oxford ou alistar-se na marinha para lutar contra Hitler. Das docas da Inglaterra às animadas ruas de Nova Iorque dos anos 40, o início de uma saga que se estende por cem anos.

Este foi o meu primeiro contacto com Jeffrey Archer e surgiu assim por acaso, num momento de ressaca literária, em que não sabia o que me apetecia ler. Do mesmo modo que nós, mulheres, abrimos o guarda roupa e dizemos sempre que não temos o que vestir, também eu abri o meu kobo e de imediato disse que não tinha nada para ler. Até que me deparei com este livro, que já tinha há uns meses devido às excelentes críticas que li, e pensei, why not?

Se comecei esta leitura relutante, com receio de ser mais uma leitura razoável e assim me decepcionar, confesso que essa apreensão rapidamente se dissipou. O autor tem uma escrita simples, bastante simples até, e conta uma história que pouco tem de complexo, sendo esta preenchida por um número mais do que razoável de coincidências que lhe dão rumo. No entanto, se pensam que este facto é suficiente para nos fazer largar o livro ou lê-lo mais devagar, enganam-se, e é aqui que reside a genialidade do autor. 

De uma história que à primeira vista nada traz de novo, Jeffrey Archer consegue aliar à modéstia da sua escrita um clima de mistério e suspense, que nos faz querer saber sempre mais, o que leva a uma leitura desenfreada para conseguirmos desvendar todos os "mas" e "como" com que nos vamos deparando. O fim de cada capítulo em nada ajuda, porque brinda-nos sempre com mais uma ponta solta e damos por nós a querer ler "só mais este capítulo" para ficarmos esclarecidos, e é uma bola de neve, que se não tivermos cuidado bem ficamos uma noite inteira acordados só para chegarmos ao fim do livro.Tem ainda a parte de romance, que se vai estender, pelo menos, no próximo livro. 

Um dos pontos fortes são as personagens, fortemente construídas. Posso-vos, por exemplo, falar de Maisie, uma mulher que perde o marido e fica a cuidar de um filho de dois anos, no início do século XX, e tudo faz para lhe dar um futuro que ninguém na família ainda tinha alcançado. A sua força e garra são um grande exemplo; Old Jack, capitão da I Grande Guerra, que apresenta traumas profundos, mas simultaneamente uma sabedoria e inteligência incríveis; Hugo Barrington, que não olha a meios para atingir os fins e é o claro vilão.... e tantos outros personagens que vale a pena acompanhar e que nos espicaçam a querer conhecê-los melhor. 

Só o Tempo Dirá acaba de tal forma, que nos obriga a pegar no segundo volume de imediato, porque não podemos de modo algum ficar assim pendurados, na iminência do que vai acontecer. E é precisamente isso que irei fazer. Se for tão bom como o primeiro, aguardam-me, decididamente, uns bons serões. 

Carla Ramos

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