Crónicas de uma Leitora: Cinema | Mad Max: Road fury - Estrada da fúria | Review

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Cinema | Mad Max: Road fury - Estrada da fúria | Review


Director: George Miller
Screenplay: George Miller | Brendan McCarthy | Nico Lathouris
Tom Hardy | Charlize Theron | Nicholas Hoult | Hugh Keays-Byrne
Rotten Tomatoes: 98% | IMDB (até à data): 8.8

- Ruiva quando é que escreves a review dos Avengers 2?
… Well that is going to take a while, tal como o Jupiter Ascending, por isso em vez disso vamos falar sobre Mad Max: Estrada da Fúria.

Há um motivo pelo qual Mad Max: Estrada da Fúria está a ser referenciado como filme do ano ao passo que os Avengers 2 e todos os outros que estrearam até agora não. Nestes cinco meses os filmes que têm saído não têm sido nada de outro mundo. Tivemos o flop do Jupiter Ascending, tivemos a desgraça que foi o 50 shades of grey, o Chappie, que apesar de me ter conquistado não fez o mesmo a outras audiências, Hunger Games Mockingjay part 1, que está a virar mais para o político e menos para a acção de matar pessoas. Let’s face it quando o filme que enche as redes sociais, os jornais a televisão etc é uma fanfic porno, algo está de errado com o cinema. Já para não falar do Furious 7 que só teve a quantidade gigantesca de dinheiro porque um dos actores morreu. E este ano apesar de haver tantos nomes bons a sair (Antman, Inside out, Crimson Peak, Spectre, Jurassic World, Terminator), a primeira metade do ano não está a ser generosa com os espectadores. 


Em retrospectiva, Mad Max: Estrada da Fúria é o melhor filme do ano, pelo menos até agora. Se estou ansiosa que outros filmes o destronem? Sim e não. Mad Max: Estrada da Fúria tem falhas. No movie is without sin e o Mad Max tem isso. Mas também tem algo que o Jupiter Ascending não conseguiu: captar ambos os mundos. Que mundos? O masculino e o feminino. Um bom filme não tem “gender”, Die Hard pode ser marketed para homens mas se um filme for bom não importa se é para homens ou mulheres. Mad Max tem a impressão que vai ser um filme cheio de testosterona e as mulheres vão ficar: ai que horror tanto sangue. It’ not. Mas vamos por partes, primeiro falemos da história.


Mad Max só tem duas personagens: Max e Furiosa. Ponto. São só esses dois nomes que aparecem nos créditos iniciais. Há mais personagens? Sim. São tão importantes? Algumas, mas por norma a bola rola entre Max e Furiosa. O próprio vilão ou antagonista, Imortan Joe nem chega a ter um papel tão relevante e é mais um acessório para a plot e o worldbuild rolarem. Dito isto, Mad Max tem uma boa história, sólida, mas que peca por ser tão pequena e tão sujeita a spoilers que consigo escreve-la numa frase sem estragar a experiência da ida ao cinema. A estrutura está um pouco diluída sendo que o Acto I e IV são os que exibem mais relevância. A estrutura dos 5 actos está lá, mas a acção desenfreada e o pouco diálogo levam ao filme ter um ritmo tão frenético que só quando as personagens param é que notamos que já vamos a meio do filme e sentimos que ainda vamos no início.


 George Miller tomou um passo arrojado ao livrar-se de diálogo que pudesse sobrepor-se às cenas de acção e contar apenas com fazer “show” de tudo o que conseguisse. Para alcançar esse efeito muitas personagens têm de fazer ginástica facial. Tanto Charlize Theron como Thomas Hardy cumprem o papel deles bem embora seja o Nicholas Hoult que acaba por roubar o spotlight ao retractar o maníaco Nux. Curioso que ele seria a personagem que precisaria de menos diálogo dado a sua linguagem corporal e facial fazerem um excelente trabalho.

O Worldbuild /setting e as cenas de acção são o que conseguem puxar a curiosidade do leitor. Se com Jupiter Ascending o worldbuild era completamente novo, com Mad Max trazemos a vantagem de já termos visto os filmes anteriores e de sabermos mais ou menos como as cenas de acção se irão processar. Contudo nada nos prepara para o que vamos ver. Todo o conhecimento prévio do worldbuild e cenas de acção são levadas a um ritmo completamente alucinante, que quando o ecrã fica preto no fim de uma cena temos de lembrar os nossos pulmões para voltar a respirar. O próprio nome da personagem principal sugere loucura contudo temos Imperator Furiosa e o Doof warrior (sendo que Doof representa um sistema de som que chega aos dez mil watts... para quem não sabe that's loud, that's very, very loud). Mesmo conseguindo de forma quase perfeita incorporar a plot com as personagens e as cenas de acção dentro de um mundo "novo" e complexo, existem algumas questões a nível da hierarquia na sociedade que não são respondidas e que poderiam ter enriquecido um worldbuild mais eficiente (por exemplo não sabemos como Furiosa se tornou Imperator e o que é uma Imperator).



Antes de saltar para o último parágrafo gostaria de endereçar o tema que tanto se tem falado nas redes sociais sobre o feminismo. Mad Max é um filme feminista? Quando saí do cinema pensei que não. Ter uma mulher forte e corajosa num leading role não faz um filme feminista. Isto não é feminismo dos anos 80 em que queríamos empowering. Feminismo sempre se baseou na igualdade do género e aí consegui ver “glimpses” de feminismo. A Imperator Furiosa revela que nunca conseguiu cumprir o seu plano, contudo com Mad Max ao seu lado ela sabe muito bem que terá mais chances de conseguir. Ambos entreajudam-se, Max um pouco ainda louco e a Imperator conhece a terra e tem coragem de enfrentar pequenos exércitos. Ainda assim consegui identificar influências no Herland de Charlotte Perkins Gilman que é uma utopia feminista da primeira metade do século XX. Contudo o fim pode ser considerado como tal. Talvez de forma algo inconsciente poderemos associar a influência de uma utopia feminista positiva e o outro polo de distopia masculina. Não creio que fosse esse o objectivo de George Miller, mas pode-se ir por esse caminho. Tal como se pode interpretar como um bom líder não depende do sexo mas sim do seu conhecimento e coração. O filme consegue ainda criar, como parte do worldbuild, um culto do kamikaze e loucura/desejo insaciável pela morte. Não é tão óbvio porque estão mascarados nas cenas de acção potentes pouco gráficas mas que funcionam demasiado bem. Para tudo isto contribui uma banda sonora barulhenta que serve para “pump” os espectadores como se eles mesmos estivessem nas cenas de acção.

Mad Max: Estrada da Fúria está longe de ser um filme perfeito; tem aspectos que roçam mesmo a perfeição, contudo para quem prefere plots complexas ou diálogos profundos ou bem construídos este filme não irá satisfazer. Compreendo que muitos julguem o filme do ano porque de facto George Miller conseguiu fazer algo que o Michael Bay nunca conseguiu: criar imensas explosões e, a cada uma, o nosso coração ficar cheio de adrenalina. Se merece a pontuação que tem no Rotten Tomatoes (98%), é questionável. Sinceramente um sólido 80% seria suficiente e acredito que o filme tenha sido hyped. Talvez se fosse sem expectativas do “melhor do ano” não me teria sentido tentada a dar uma nota mais baixa. Mesmo assim, Mad Max é um bom filme, barulhento, tresloucado e com vontade de fazer algo novo e mudar certos aspectos nos filmes de acção.

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