Crónicas de uma Leitora: Cinema | Opinião | As Cinquenta Sombras de Grey

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Cinema | Opinião | As Cinquenta Sombras de Grey



Depois de meses e meses de espera e especulação, chegou finalmente às salas de cinema a adaptação cinematográfica de As Cinquentas Sombras de Grey (Lua de Papel, 2012), da autoria de E. L. James.

O filme, realizado por Sam Taylor- Johnson, e protagonizado por Jamie Dornan e Dakota Johnson, traz-nos a história de Anastasia Steele, uma inocente estudante de literatura, e Christian Grey, um empresário milionário com gostos bastante singulares, segundo as palavras do próprio.

Em linhas gerais, com mais ou menos conhecimento de causa, a verdade é que todas as pessoas neste mundo já devem ter ouvido falar desta história de alguma maneira, a menos que tenham andado a viver debaixo de uma rocha nos últimos anos. O que começou como sendo uma fanfiction de Crepúsculo (Gailivro, 2006), de Stephenie Meyer, acabou por se transformar num fenómeno universal, com as vendas dos livros a atingirem números tão altos quanto a quantidade de milhões de dólares que o próprio Mr. Grey tem na sua aparentemente inesgotável conta bancária.

A dia 12 de Fevereiro de 2015, mesmo a tempo de capitalizar com a comemoração do Dia dos Namorados, marcou-se então o início de mais um capítulo nesta que é a mais polémica história de ficção dos últimos anos.

Em apenas poucos dias de exibição, esta tão antecipada adaptação já divide as opiniões, tal como já o seu correspondente literário havia feito: se por um lado há quem adore o resultado final, há também quem não o suporte... Especialmente se for um crítico de cinema elitista.

Atraída pela excelente campanha publicitária que foi gerada à volta deste filme, eu própria acabei por ser uma daquelas pessoas que deu por si a sucumbir ao efeito Grey. Sem nunca ter lido o livro que lhe deu origem, e admitindo abertamente que a opinião previamente formada a respeito do enredo e das personagens maioritariamente através de comentários alheios não era, de todo, muito boa, lá me dirigi para a sala de cinema mais próxima, totalmente preparada para me ir deparar com o filme de pior qualidade a alguma vez agraciar o grande ecrã.

Duas horas de filme depois, e já se tendo passado uns dias entretanto, vejo-me numa situação na qual não pensei vir a estar: a dar a mão à palmatória. No final das contas feitas, As Cinquentas Sombras de Grey não é assim tão terrível quanto isso; definitivamente não tão mau quanto poderia ter sido. Se é a nova grande revelação no mundo do cinema? Não, não é. Nunca ninguém irá ver este filme a receber grandes prémios, nunca ninguém irá vê-lo a receber grandes críticas... As Cinquenta Sombras de Grey é, no entanto, um filme de entretenimento leve, que pode e deve ser visto de um modo descontraído, e que prima especialmente pelo cuidado técnico e estético com o qual foi concebido.

Se é verdade que, tendo em conta a história base, não havia muito que os guionistas pudessem fazer para tornar este filme mais interessante ou cativante em termos de narrativa, também é verdade que a equipa técnica foi para além do esperado e requerido para compensar alguns desses défices da melhor maneira possível. De notar, particularmente, é a maneira como as tão badaladas cenas de sexo foram abordadas: filmadas com recurso a planos bastante artísticos e de bom gosto, longe fica a vulgaridade que poderia ter sido inerente a este tipo de cena, especialmente tendo em conta o carácter BDSM de algumas delas. De aplaudir também é o excelente uso da fantástica banda sonora escolhida e a maneira como todas as cenas em que é usada foram editadas de um modo extremamente preciso, fazendo com que tanto a música como a própria letra das canções traga uma outra dimensão e subtexto à componente visual.

Tentando balançar-se na ténue linha entre algo risqué e algo não socialmente aceitável, nota-se ainda que foi com as susceptibilidades do público em geral em mente que algumas alterações foram feitas ao enredo e às personagens. Foi uma agradável surpresa ter ficado a conhecer esta versão de Anastasia, uma jovem mais assertiva, com mais jogo de cintura, e com mais consciência do seu próprio valor e atractivos do que a sua vertente literária. Por outro lado, foi também com alívio que me vi ser apresentado um Christian com comportamentos mais atenuados e menos doentios quando em comparação com a mesma personagem no livro. Por último, em relação àquele que penso ser o mais controverso de todos os argumentos, gostei de ver que no filme não foi deixado espaço para dúvidas: não significa não e consentimento é a palavra de ordem. Se, pelo que tantas vezes é referido por tanta gente, no livro existem certas instâncias em que a interpretação pode ser considerada dúbia, podem ficar assegurados de que no grande ecrã não é isso que vão encontrar.

Assim sendo, como podem ver, aqui estou para admitir que me encontro agradavelmente surpreendida  por aquele que poderia ter sido um dos piores filmes do ano, mas que de alguma maneira conseguiu fugir a esse título no que toca à minha opinião pessoal...Quanto aos Razzies, infelizmente, já nada posso garantir. Algo me diz que, para o bem ou para o mal, fará inevitavelmente parte de algumas categorias na edição do próximo ano.

Certo é que nestas andanças de Hollywood o que chama mais alto é o rendimento monetário, e essa honra já ninguém tira a As Cinquenta Sombras de Grey, que já se tornou a estreia mais lucrativa de sempre no mês de Fevereiro (ironicamente destronando A Paixão de Cristo) e, acima de tudo, o filme mais lucrativo de sempre a ser realizado por uma mulher. E já que tantas vezes esta história está associada a temas que vão contra os ideais feministas, ficam aqui os meus parabéns à realizadora por este feito.

A luz verde já foi dada à produção das respectivas sequelas, As Cinquenta Sombras Mais Negras (Lua de Papel, 2012) e As Cinquenta Sombras Livre (Lua de Papel, 2012), estimando-se que as filmagens comecem já no próximo mês de Junho e a estreia do segundo filme esteja prevista já para 2016. Da minha parte, eu cá estarei para mais umas idas ao cinema e, possivelmente, mais umas agradáveis surpresas.

1 comentário:

  1. Estou muito curiosa em relação ao filme. Tão curiosa que estou a ler o livro neste momento para ir a correr ao cinema! :)

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