Crónicas de uma Leitora: Os Sonhos que Tecemos, de Kate Alcott [Opinião]

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Os Sonhos que Tecemos, de Kate Alcott [Opinião]

 Sinopse:
Alice Barrow desafia todas as convenções ao abandonar o mundo rural e tacanho onde nasceu. Numa época em que as mulheres são cidadãs de segunda categoria, o seu emprego na fiação da família Fiske é um passo importante rumo à emancipação. As "meninas da fiação" trabalham longas horas em condições precárias mas a alegria que as une é completamente nova para ela. Um dia, até dá por si a cometer a "extravagância" de celebrar o seu primeiro salário com a compra de um chapéu. É apenas um objeto mas vai ganhar a força de um talismã. Inadvertidamente, Alice capta a atenção de Samuel Fiske, filho do dono da fábrica. Samuel é um enigma. Frio e impenetrável, tem o condão de contrariar frequentemente a própria família. O seu fascínio por Alice é a derradeira afronta aos pais e à ordem social. Será amor ou mero capricho? O teste aos seus sentimentos será abrupto. Quando uma jovem muito especial aparece morta, toda a hierarquia de poder é posta em causa. O que se segue é um eco da luta ancestral entre ricos e pobres, poderosos e oprimidos. Apenas os mais determinados conseguirão vingar. Apenas um amor verdadeiro poderá sobreviver.




Este livro poderia ter facilmente o nome "As raparigas da fiação" e seria igualmente bem aplicado à história nele retratado, claro que Os Sonhos que Tecemos é muito mais apelativo e a capa é de uma beleza encantadora e posso dizer que apela à calma, gosto especialmente da lanterna na mão da senhora porque faz-me pensar que precisamos de uma luz para guiar o nosso percurso. 

Este livro de Kate Alcott, pseudónimo da jornalista Patricia O'Brien, é um hino aos direitos dos trabalhadores explorados pelo patrões que apenas visavam o lucro sem lhes proporcionar quaisquer condições laborais aceitáveis. Reportando ao ano de 1832, a acção passa-se em Lowell (berço da revolução industrial americana), perto de Boston no estado de Massachusetts e fala-nos de Alice, uma jovem recém chegada à cidade, de uma quinta, para tentar melhorar de vida.

As operárias fabril viviam em pensões sobrelotadas, trabalhavam 13 horas por dia nos teares (6 para cada uma), com uma folga semanal, as condições da fábrica eram degradantes podendo ocorrer com alguma frequência acidentes potencialmente graves. As janelas tinham de se manter fechadas para o algodão se manter humido o que levava a que respirassem fios de algodão que lhes provocava terríveis ataques de tosse que passavam apenas quando conseguiam expelir o algodão e isto apenas no melhor dos casos. Refiro as mulheres pois foi sobre elas que a autora se debruçou, porém os homens não tinham condições muito melhores.

Uma obra extremamente rica, com uma escrita que nos transporta para a época retratada e nos faz viver a história daquelas jovens mulheres que buscam a independência, a justiça e a igualdade. Vemo-nos a ansiar respostas, exigir melhoramentos, pensar em formas de reclamar direitos. Vivi intensamente este livro, ao ponto de ter sonhado, literalmente, com ele, com a fábrica, com formas de revolta mais ou menos claras. Uma linguagem adequada sem ser complexa, formas de pensar e de estar coerentes com as mentes do sec. XIX, uma viagem a um mundo tão igual e tão diferente, lembrando-nos das conquistas que temos conseguido ao longo dos séculos mas também o quanto temos ainda de lutar para atingir um patamar mais elevado. Perceber as mudanças, aceitá-las e partir para novas metas.

Não esperem um romance intenso, com grandes declarações de amor e atitudes arrebatadoras, esperem sim mulheres fortes, determinadas, amigas, lutadoras, furacões em forma de gente, uma lição de dignidade, de história e de amizade.

Adorei e recomendo.

1 comentário:

  1. Quando eu me envolvo muito num livro, também sonho com ele.
    A opinião está excelente, eu já andava curiosa com ele (mais pela capa do que pela sinopse) mas agora vai definitivamente para a minha wishlist. :)

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