Crónicas de uma Leitora: Enquanto Dormes, de Alberto Marini [Opinião]

domingo, 27 de julho de 2014

Enquanto Dormes, de Alberto Marini [Opinião]

Sinopse: 
Cillian, porteiro de um edifício de Nova Iorque, sente prazer em prejudicar as pessoas que o rodeiam. Ele conhece a fundo todos os inquilinos do prédio. Controla as suas idas e vindas, estuda-os, descobre os seus pontos fracos, os seus segredos.
Clara, a condómina do 5.º B, é a sua próxima vítima, e ele não parará enquanto não conseguir destruir-lhe a vida.
Todas as manhãs, Cillian faz um jogo consigo próprio a que chama «roleta russa»: coloca a sua vida no abismo, procurando um motivo para viver mais um dia. Incapaz de ser feliz, o seu único conforto é impedir que os outros o sejam.
Clara é a sua antítese: uma mulher feliz, em paz, que reage com um sorriso a tudo o que a vida lhe oferece. A sua indestrutível vitalidade transtorna Cillian, que levará o seu jogo ao extremo. Um jogo que se revelará mais complexo do que alguma vez podia imaginar.



Há cerca de ano e meio que não lia nenhum livro do género policial/thriller, desengane-se quem acha que não gosto, a verdade é que adoro mas vivo as minhas leituras com uma intensidade tão grande que passava dias aflitivos devido aos níveis de violência física e psicológica que os autores nos transmitem, mas não foi motivo suficiente para me afastar definitivamente. Há bastante tempo que pensava ler algo do género mas parecia que nenhum livro era o que me chamava de volta, até que li a sinopse desta obra, falei com a Vera Brandão do blog Menina dos Policiais e cuja opinião podem ler aqui e decidi-me.

Enquanto dormes de Alberto Marini é um thriller contemporâneo que foi publicado em julho pela Planeta. Surgiu na forma de guião porém devido às alterações e adaptações que teve de se fazer para produzir o filme e de modo a não se perder determinados elementos surgiu o livro, de certa forma o livro estará mais fiel ao guião original pelo que estou com muita vontade para ver o filme e verificar as diferenças.



A acção tem lugar num prédio de Nova Iorque  e conta a história de Cillian, um homem de 30 anos e que é porteiro do edifício há cerca de dois meses. Desde a adolescência que sofre de um disturbio de ansiedade grave que o leva a empreender um "jogo" de roleta russa todas as madrugadas para perceber se tem ou não motivos para "voltar para a cama" ou se se deve suicidar. Desde criança que retira satisfação, ou até mesmo felicidade, em ver os outros sofrerem seja física seja psicologicamente principalmente se conseguir ter algum papel de relevância no sofrimento alheio, um dos seus passatempos é passear pela cidade em busca de pessoas infelizes tentar perceber a sua história de modo a conseguir colocar o "dedo na ferida" e fazê-las passar um mau bocado. No seu trabalho dedica-se a esquadrinhar a vida de todos os condóminos de forma a conseguir amargurar-lhes a vida. Com uma mente perversa e completamente defasada da realidade consegue propor-se a tarefas que devassa  irremediavelmente a privacidade alheia.

Clara é a condómina do 8.ºA, uma rapariga alegre, bem disposta que mesmo quando o dia lhe corre mal (invariavelmente por interferência do porteiro) consegue superar os obstáculos com um sorriso no rosto, é esse sorriso que Cillian vai tentar, por todos os meios, apagar. Porém não é apenas a esta condómina que o porteiro vai torturar, muitas vezes com conversas de ocasião que despertam temas de grande dor aos outros residentes, encontrando um oponente apenas no condómino do 10.ºB.

A narrativa ocorre maioritariamente no prédio porém temos acesso a algumas deambulações do porteiro pela cidade sempre com objectivos obscuros e que nos mostram mais um pouco da sua personalidade doentia.

As emoções que nos afloram durante a leitura desta obra variam entre a repulsa, a surpresa e a incredulidade. Apesar de escrito na 3.ª pessoa do singular, o narrador dá-nos acesso aos pensamentos de Cillian o que nos deixa inconfudivelmente nauseados.

O autor conseguiu construir uma trama sólida, que nos envolve e nos fascina de forma mórbida e cuja crueldade impressa nos conduz a uma leitura compulsiva. Maioritariamente psicológico o facto de não haver grandes traços de agressividade física desperta-nos sentimentos ambiguos que variam entre a curiosidade e o horror. O final, avassalador e abrupto, faz-nos cair na realidade de forma brutal e leva-nos a questionar se conhecemos verdadeiramente as pessoas que nos rodeiam.

Adorei voltar ao género!

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