Crónicas de uma Leitora: Sonhos de Papel, de Ruta Sepetys [Opinião]

sexta-feira, 21 de março de 2014

Sonhos de Papel, de Ruta Sepetys [Opinião]

Sinopse:

Josie Moraine vive mais do que uma vida. Ela é filha de uma das prostitutas de luxo mais cobiçadas de Nova Orleães, um estigma que a arrasta para o submundo decadente da cidade. Vítima da negligência da mãe, tem nos moradores do extravagante Bairro Francês os seus maiores aliados. De Cokie, humilde e fiel; a Willie, a dona de um bordel cuja frieza esconde um coração de ouro; e a Jesse, tímido, atraente e eternamente apaixonado, todos a protegem e velam por ela. Mas Josie sonha mais alto e move-se com igual à-vontade nos corredores da livraria onde, graças à bondade de um desconhecido, trabalha e habita. Este é o seu porto seguro. Aqui, entre as estantes repletas de livros, no pequeno escritório que agora lhe serve de quarto, não tem de se defender da sua própria mãe nem fingir ser a durona solitária que domina as ruas. Ao anoitecer, quando a porta se fecha e as luzes se apagam, ela descobre nas páginas que folheia a imensidão do mundo e anseia por uma vida melhor. Uma vida como a de Charlotte, a filha de uma família da alta sociedade, cuja amizade a inquieta a ponto de arriscar tudo, mesmo a promessa de um amor verdadeiro. E quando os seus sonhos estão prestes a realizar-se, um crime muda tudo... para sempre.

Opinião por Sofia Mesquita:



Quando vi este livro fiquei cativada, desde logo, pelo breve resumo da história. Apesar de ainda não conhecer a Autora nem ter lido muito sobre o livro em si, acabei por render-me e trazê-lo comigo para casa. Não desiludiu, mas ficou, ainda assim, um nadinha aquém das expectativas.

Em primeiro lugar, e ainda que possa parecer assim, esta não é uma história sobre a pobre rapariga que nasceu no sítio errado à hora errada. Muito pelo contrário: encontramos em Josie não só uma sobrevivente, mas também uma determinação desmesurada, que, contra todas as probabilidades, a leva numa caminhada que a afasta do futuro que lhe estava destinado.

Toda a “trama” do livro é contada na primeira pessoa, sendo através dos olhos de Jo que vamos acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e o evoluir das personagens. Do extenso leque de fantásticas personalidades que conhecemos em “Sonhos de Papel”, aquela que mais me cativou foi Willie, a extravagante dona do bordel. É uma personagem algo rude e obstinada, mas que no final nos demonstra qualidades que julgávamos impossíveis. A verdade é que, por detrás de uma faceta de matriarca durona, Willie é uma mulher que olha pelos seus e que, mesmo depois de muitos altos e baixos, procura garantir que todos recebem o conforto que merecem.

No pólo inverso temos Louise. É impossível não guardar ressentimentos contra esta figura, desde logo pela relação que mantém com Jo, ou melhor, a falta dela. Louise é uma personagem movida exclusivamente pelo dinheiro e pela ambição, para quem nada na vida importa além de viver bem e a filha nada mais é que um empecilho, um que convém “esconder” nos momentos de negócio e “descobrir” quando as necessidades apertam. Começando pela história do nome de Josie até ao duro golpe final que a deixa (ainda mais) desamparada, Louise é daquelas personagens por quem não conseguimos sentir um mínimo de compaixão e que gostaríamos de ver ter a paga que merece no final.

O enredo criado por Ruta Sepetys deixa-nos transparecer algumas mensagens que, ainda que algo corriqueiras, é sempre bom recordar. Por um lado, é uma história sobre altruísmo, sobre a capacidade que o ser humano ainda vai tendo para ajudar o próximo e se colocar em segundo plano numa determinada lista de prioridades. Por outro lado, é um incentivo para que sejamos capazes de persistir e levar os nossos sonhos e objectivos até onde não der mais. E por fim, é uma história de amizade e amor, em que se mostra claramente que as nossas raízes nem sempre definem aquilo que somos, as escolhas que fazemos e aquilo que ainda poderemos vir a ser.

Mas é também um enredo que deixa pouca margem para imprevisibilidade, acabando por seguir um rumo que nos deixa antever a conclusão da narrativa. Ainda que com alguma dose de suspense e um bocadinho de mistério, com um homicídio e um roubo à mistura, uma dívida para pagar e a expectativa de uma outra morte quase certa, as pistas que vão surgindo ao longo da narrativa tornam os desfechos demasiado evidentes antes do tempo e levam a um sem fim de pontas soltas que me deixaram com alguma insatisfação.

Ainda assim, posso dizer que gostei muito de conhecer esta Nova Orleães dos anos 50, adorei conhecer a Josie e de ver a sua cumplicidade com Patrick e Cokie e o amor incondicional que Willie e Charlie sentem por ela.

Para ler, reler e guardar na prateleira com carinho!

1 comentário:

  1. eu gostei das temáticas, mas achei-as desenvolvidas de uma forma tão reles e tão sem sal que foi corrido a 1*... acho que criei muitas expectativas... :( foi sem querer...

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