Crónicas de uma Leitora: O estranho de Vanessa M. de Filipa Fonseca Silva [Opinião]

domingo, 15 de setembro de 2013

O estranho de Vanessa M. de Filipa Fonseca Silva [Opinião]

O Estranho Ano de Vanessa M.


Sinopse:
Quando entrou no carro, naquela tarde de Inverno, Vanessa não sabia que estava a embarcar numa viagem sem retorno. Uma viagem interior, que pôs em causa todas as suas escolhas e, acima de tudo, toda uma vida construída em torno das expectativas e opiniões dos outros. Entre episódios trágicos e cómicos, que envolvem uma mãe controladora, uma tia hippie, um casamento entediante, um chefe insuportável e uma amiga que não sabe quando se calar, “O Estranho ano de Vanessa M.” conduz-nos nessa auto-descoberta e faz-nos reflectir sobre o poder que temos de, a qualquer momento, colocar tudo em questão. Porque a busca da felicidade não tem prazo.


Ora aqui está um livro que me surpreendeu pela positiva. Devido às minhas parcas leituras de autores portugueses (em média de 10 livros por mês, leio 1 ou 2 de autores do meu país) habitualmente quando inicio uma obra escrita na minha língua mãe tendo a não comparar pois frequentemente até são estreias dos autores e a minha primeira experiência com a sua escrita e as suas histórias. Por isso quando iniciei esta obra ia sem qualquer expectativa e é tão bom sermos agradavelmente surpreendidos. Como é habitual não li a sinopse e mergulhei de cabeça neste estranho mundo de Vanessa M. 

Estranho para uns, normal para outros, afinal tudo é relativo e subjectivo, a vida de Vanessa e as acções desta, em doze meses dá uma volta de 360º graus acabando feliz com aquilo que tentava fugir. Já é frequente ler livros de autores portugueses narrados na primeira pessoa em que a personagem principal, normalmente feminina dificilmente agrada-me. Aqui a autora arriscou contar a história apenas do ponto de vista de Vanessa mas felizmente moldou-a de uma forma aprazível e de fácil empatia, pelo menos para mim, obviamente. Apesar de nunca ter passado nem metade dos problemas que Vanessa tem de enfrentar, facilmente percebi o seu estado psicológico e o porquê da sua fuga ao mundo rotineiro onde sempre viveu e nos tempos em que vivemos, lidar com a pressão da sociedade que nos insere num padrão de vida onde a repetição dos mesmos actos é constante. 

Apesar de toda o enredo se centrar em Vanessa, as personagens secundárias felizmente existem e tem consistência na narrativa, apesar de achar que do rol de homens que Vanessa vai conhecendo, metade era dispensável e só serviu para mostrar o quanto Vanessa era capaz de dar uma volta à sua vida e o quanto ela era capaz de continuar a tomar decisões pouco abonatórias a seu favor. Os romancecos com Johnny e o advogado só serviram para isso, foram um meio para um fim feliz com outro homem, aquele com que estive sempre a torcer para com que Vanessa acabasse. 

A inserção das consultas com o psiquiátra foram bem enquadradas dentro do perfil do livro, mostrar que por vezes até precisamos apenas de um empurrão para orientarmos a nossa vida, pois não achei que as consultas fossem o grande motivo para Vanessa emendar os seus erros, acho que esta foi aprendendo por experiência própria (mesmo não fazendo as melhores figuras) a forma de viver melhor consigo própria. Gostei bastante de como a Vanessa não foi retratada como a "coitadinha" da história, ela própria afirma que estragou tudo mas quer encontrar uma forma de ser uma melhor trabalhadora, uma melhor amiga, uma melhor filha, uma melhor mãe e uma melhor mulher.

É constante, não diria lições de moral ou lemas de auto-ajuda, mas um certo tom de reflexão sobre a sociedade em que vivemos a vida que levamos hoje em dia, cada vez mais virados para o nosso umbigo e preocupados com o trabalho, os filhos, as tarefas em casa, as pessoas invejosas e rancorosas que muitas vezes esquecemos-nos de tirar um certo tempo para olhar à nossa volta. Pode parecer cliché mas não deixa de ser verdade e gostei bastante de como a autora introduziu o tema da repetição dos mesmos hábitos todos os dias, da falta de liberdade em escapar à rotina de todos os dias, receando sempre os juízos de valor dos outros.

Foi mesmo uma leitura que me deixou bastante agradada, não só a personagem principal surpreendeu-me por não ser uma "Mary Sue" como a maioria das personagens femininas que tenho encontrado em livro portugueses este ano, como o livro apresenta uma estrutura pensada, ou pelo menos bem polida sem excessos e "coisas" dispensáveis. É coerente, agradável de se ler e por aqui recomenda-se a sua leitura. Gostei muito.

Nota para a capa, não sei se foi feita pela autora ou não mas está bastante bem conseguida e reflecte inteiramente o livro. 


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