Crónicas de uma Leitora: Entrevista Nacional - Carla M. Soares

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Entrevista Nacional - Carla M. Soares

 Lemos Alma Rebelde num ápice e adorámos como dissemos na opinião que publicámos aqui. Achámos que se impunha uma entrevista à autora cujo primeiro romance foi publicado pela Porto Editora. Para quem não conhece ainda o livro dizemos apenas que este retrata uma jovem no sec. XIX que se vê num casamento arranjado com um nobre. Joana tem que fazer uma longa viagem de vários dias até à casa deste para o conhecer vivendo momento de nervosismo entre a sua mente rebelde e os seus modos educados.


A autora Carla M. Soares nasceu em 1971.Formou-se em Linguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras de Lisboa, e tornou-se professora. Tem um Mestrado em Estudos Americanos, em Literatura Gótica e Film Studies. É doutoranda no Instituto de História da Arte, na Faculdade onde se formou. Funciona a café e letras, e gosta dos seus silêncios.
É, antes de mais, filha, mãe, mulher, amiga. Leitora e escritora compulsiva. Sempre.


Identificas-te com a Joana? Consegues imaginar-te a fazer uma viagem igual à que ela fez?
Não me identifico com a Joana nem me imagino numa viagem como a que ela fez, nem eu nem a grande maioria das mulheres de hoje, embora haja demasiadas raparigas em determinadas culturas não-ocidentais que ainda estão sujeitas à vontade alheia e a circunstâncias piores do que as de Joana. Devo dizer que sou muitíssimo feminista, no sentido em que defendo com unhas e dentes a igualdade de direitos e obrigações para ambos os sexos em todos os aspectos da vida - embora reconheça diferenças na forma de agir e pensar. No entanto, quando criei a personagem e a coloquei nesta viagem, ou nestas viagens, tentei pensar e sentir como uma rapariga de meados do século XIX, quando começavam a despontar os sentimentos de independência feminina, e não como uma mulher independente e auto-suficiente do século XXI. Talvez seja difícil para a maior parte de nós compreender Joana e as suas hesitações, mas creio que ela constitui um retrato mais ou menos fiel de muitas das jovens da sua época.

Também leste “Madame Bovary”?
Li já há muito tempo e, ao contrário de outras pessoas que o acharam aborrecido, nessa altura gostei bastante. A referência ao livro no Alma Rebelde não é de todo inocente, prende-se com o desejo de liberdade da Joana e com a sensualidade e rebeldia de Santiago. Muito gostaria Joana de ter o desprendimento da Bovary!

Gostaste mais de descrever o Santiago rebelde ou o apaixonado?

Não sei se é possível separar os dois aspectos, porque estão profundamente interligados, pelo menos no Santiago. Ele faz tudo de forma apaixonada, incluindo rebelar-se, faz parte da sua personalidade. Nem sei se é possível ser rebelde sem alguma paixão, quanto mais não seja pela liberdade ou por uma causa.

Como têm sido as criticas ao “Alma Rebelde”?
No geral bastante boas, embora talvez deva chamar-lhes opiniões e não críticas, uma vez que o livro passou completamente ao lado dos profissionais da crítica. . Por parte dos blogues e das comunidades de leitores, a recepção tem sido muito agradável, os leitores têm gostado, embora nenhum livro possa agradar a todos, claro. Há quem o considere demasiado romântico, pouco histórico... mas creio que, nesse aspecto, a sinopse não engana nem eu alguma vez pretendi que este livro fosse senão aquilo que ele é, uma história simples. Fico contente por, mesmo nos casos de quem não gostou tanto da história, se referir quase sempre que está bem escrito.

Dizes que não escreves romances históricos mas de época, contudo nota-se no teu trabalho vários detalhes importantes da nossa história. Fazes investigação antes de iniciar um romance?
Sim, claro, antes e durante. Como não tenho a intenção de entrar profundamente nos acontecimentos históricos, situo-me na época, aprendo o que me falta sobre os acontecimentos sociais e políticos e o ambiente desse período histórico, e depois centro-me nos pormenores que me fazem falta. Por vezes isso acontece já durante a escrita, posso levar eternidades a descobrir sobre as linhas do Caminho de Ferro e a duração das viagens, por exemplo, ou sobre navios que passaram por Lisboa num certo ano... São coisas de nada que dão consistência à narrativa e que nem sempre são fáceis de descobrir.

Porquê romances de época?
O Alma Rebelde foi o primeiro que escrevi e até aí nunca me tinha ocorrido fazê-lo. Depois surgiu a ideia, ligada à narrativa epistolar, às cartas, a história nasceu e foi-se alterando - e como! - e a PE gostou dele... Como gostei deste processo, voltei a experimentar, mas não é exclusivo. Escrevi outras coisas no campo da fantasia, e um dos romances posteriores ao Alma é parcialmente contemporâneo... A escrita de época é diferente da de fantasia, a que me dediquei antes, mas tem uma coisa em comum, a necessidade de criar um ambiente próprio que não é o do nosso dia a dia. A diferença é que em fantasia fazemos o que nos apetece e no romance de época há que investigar e ser cuidadoso não só com a plausibilidade dentro da narrativa, mas com a fidelidade à época.

O teu último livro chama-se “O Cavalheiro Inglês” é o título definitivo? O que nos podes contar sobre ele?
Refiro-me sempre a este título como provisório porque ainda não submeti o original à PE, estou a revê-lo. O que posso dizer sobre ele... Que é uma história de época, como o nome aponta, passada em Lisboa no ano de 1892, mas muito diferente do Alma, sem a componente epistolar, muito menos reflexivo, com uma heroína mais dinâmica do que a Joana. Tem um irmão que pode ou não ser anarquista e ter cometido ou vir a cometer um crime, um noivo que é duque e pode ou não sobreviver à história, um cavalheiro inglês por quem a protagonista, Sofia, pode ou não apaixonar-se. E ela pode ou não meter-se em sarilhos por causa do irmão ou por causa do noivo... Já estão a sorrir com os meus disparates? Claro que o estilo de escrita não muda, sou eu que o escrevo! Seja como for, ainda está em processo de revisão, algumas coisas podem mudar.
É difícil publicar em Portugal? Como tem sido a tua experiência?
Pelo que tenho lido por aí, acho que é difícil, sim. As editoras hesitam em investir em autores novos, o que se compreende se tomarmos em consideração que são antes de mais um negócio. E sei que recebem originais às centenas, mas não sei qual será a qualidade média deles. A minha experiência foi bastante simples. Embora já escrevesse há muito tempo antes de aventurar-me (o Alma Rebelde foi o quinto ou sexto romance completo que escrevi, embora o primeiro do género) só há cerca de um ano, nem tanto, tinha começado a enviar originais quando a PE me respondeu, mostrando logo à partida um bom conhecimento da história e bastante interesse. No entanto sei que nesse ano só investiram em dois autores nacionais novos e desconhecidos, e este ano não sei se investirão em algum. Depois da aceitação final do original, o processo foi demorado até o livro sair, mas correu tudo muito bem, houve sempre muito cuidado e atenção da parte da editora. O mais difícil tem sido esperar pelo feedback, que tarda. Imagino que saber se se vendeu ou não leva tempo, é necessária informação das livrarias, mas como esse é um factor importante para conhecer o acolhimento do livro e as perspectivas futuras, para o autor é difícil esperar.

Mulher, mãe, dona de casa, professora de inglês, onde é que a escrita se encaixa na tua vida?
Pelo meio disso tudo ainda devia ser estudante, porque fiz a parte curricular de um doutoramento em História da Arte, que creio que vou ter que abandonar por falta de tempo para escrever uma tese decente, mas a escrita encaixa em todos os minutos livres, que nem sempre são suficientes. Dedico-lhe sempre os Sábados e Domingos de manhã, e de resto é quando posso. Há coisas do quotidiano que têm que ser feitas, não perdoam, e o que dá prazer por vezes tem que ficar para segundo plano. Infelizmente em Portugal viver da escrita é para poucos, e não é certamente para principiantes como eu, que podem ou não ter um futuro neste meio.

2 comentários:

  1. Eu já tive o gosto de ler este romance e adoreiiiii.
    Foi uma estreia, neste género literário. Uma óptima experiencia.

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  2. Uma bela entrevista, embora com alguns erros (parecem de formatação e de esquecimento). Perguntas interessantes e respostas curiosas.

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