Crónicas de uma Leitora: Por amor a Che

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Por amor a Che



Título: Por amor a Che
Autora: Ana Menéndez
Tradução: Helena Serrano
Editora: Civilização Editora
Publicação: Março de 2005; 2.ª edição em Agosto de 2005
Páginas: 192

Sinopse:
No seu primeiro romance, Ana Menéndez produz uma imagem íntima e espantosa da Cuba revolucionária, testemunhada por uma mulher idosa que recorda um caso amoroso com o rebelde mais impetuoso e carismático do Mundo, Ernesto “Che” Guevara.
Em Miami, uma jovem cubana sem nome procura em vão a mãe que a abandonou. O seu único elo com o passado é um pedaço de papel com três linhas de um poema de Pablo Neruda, que o avô encontrou preso à roupa dela depois de ter conseguido evadir-se com a neta da turbulenta Havana dos anos 60. A procura parece perdida até à chegada por correio de um pacote misterioso. O seu conteúdo, várias fotografias e manuscritos velhos, é uma sentida carta de amor da mãe para a filha, ainda mais notável é a exposição insensível da relação secreta da mãe com o enigmático Che. Agora, a filha regressa a Havana para juntar os factos subjacentes à história da mãe. Por amor a Che é uma recaptura brilhante das esperanças e dos desapontamentos, da excitação e do terror da Cuba revolucionária e uma imaginação da vida de um símbolo querido. Ana Menéndez escreveu uma meditação inesquecível sobre como as histórias que escrevemos acerca dos outros acabam por se tornam a história de nós mesmos.

“Ernesto pegou-me na mão e beijou-a. Recordo-me de que Calixto se riu perante esse gesto, um riso de passarinho.
- A minha mulher – disse Calixto – tem um jardim magnífico no quintal. Devia vê-lo […] às quintas-feiras, arranja uma dúzia de ramos para levar aos doentes pobres da enfermaria das crianças.
Ernesto dobrou-se pela cintura a esta última referência:
- E um coração maravilhoso, também – disse ele, ainda a olhar para mim”

Opinião:
Como revolucionária assumida, inspirada pela força, coragem e determinação de Che Guevara, um dos ícones da Revolução Cubana, confesso que, desde logo, o título me chamou a atenção. Bastou folhear as primeiras páginas para ficar presa ao enredo e em apenas algumas horas devorei toda a história com uma sede de ler que já não me acontecia há muito tempo.
Uma narrativa escrita de forma simples e soberba pela jornalista cubana Ana Menéndez, construída como um puzzle, cujas peças se vão encaixando ao longo de uma história intrigante, plena de romantismo, fantasia e com algum suspense pelo meio.
Numa espécie de biografia, a autora, filha de cubanos exilados, sempre se intrigou em relação às origens do seu passado, depois de, nos conturbados anos 60, ter sido entregue aos cuidados do avô materno ainda bebé, tendo ido viver para Miami. O seu único elo com as suas raízes é um poema de três linhas de Pablo Neruda que a acompanhou desde que deixou Havana: “Adeus, mas estarás sempre comigo, vais dentro de uma gota de sangue que circula nas minhas veias”.
Depois de várias viagens infrutíferas ao seu país natal, um dia recebe em casa uma misteriosa caixa, já após o falecimento do avô, com fotos e cartas enviadas pela mãe. A partir daí, a história evoluiu e prende o leitor a cada episódio narrado, interligado com os ideais revolucionários e um amor clandestino e avassalador vivido entre a sua progenitora e Che Guevara. Numa última tentativa de descobrir se a mãe ainda está viva decide voltar, pela última vez, ao bairro onde viveram os seus antepassados. Desta vez, encontra um país diferente, mais evoluído mas ainda com contrastes em termos de pobreza. No meio das suas buscas pelas ruelas de Havana acaba por encontrar o antigo estúdio onde a sua mãe, entretanto falecida, passava os dias a pintar e que, agora, serve de abrigo a uma antiga empregada. É ela que lhe desmitifica a relação extra-conjugal com Che, porque, afinal, naquele tempo, todos amavam e idolatravam aquele homem que passou a viver nas montanhas na tentativa de libertar o povo da opressão. A sua mãe não fugiu à regra e idealizou todos aqueles episódios, deixando, bem vincado, o seu amor platónico, em vários quadros pintados a óleo e outros a carvão do grande revolucionário, o seu pai do coração, como o apelidou no final do enredo.

Susana Cardoso

Saudações literárias

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