Crónicas de uma Leitora: Entrevista a Andreia Ferreira

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Entrevista a Andreia Ferreira


Depois de lançar o segundo volume da trilogia Soberba, Andreia Ferreira partiu já em busca do final que todos queremos ler, Soberba Ilusão. Mas enquanto isso não acontece colocámos umas perguntas...
Andreia Ferreira no lançamento de Soberba Tentação


(Crónicas de uma Leitora) Como é que a escrita entrou na tua vida?
(Andreia Ferreira) A escrita entrou na minha vida desde que aprendi a juntar letras e a formar palavras. Depressa me apercebi de que conseguia expressar-me melhor nessa nova forma. As palavras, na oralidade, custam a sair e perdem um pouco a sua essência quando proferidas, pelo menos por mim.
Comecei por escrever diários, mas logo desisti. A palavra escrita é muito poderosa e, com uma adolescência carregada de emoções, estava a dar demasiada importância a momentos que devem ficar gravados apenas como uma névoa na memória.
Surgiu a veia poética, quando aprendi a rimar. Escrevia sob metáforas aquilo que me ia na alma e só eu entendia o que cada palavra significava, qual era o sentimento que lhes entregava. Porém, sentia que algo estava em falta. Havia a falta do sujeito, que eu teimava em não associar totalmente a mim. Foi aqui que surgiu a paixão pela criação de personagens e, consequentemente, o meu primeiro conto (que eu chamava inocentemente de livro) sobre uma jovem que foi levada à loucura por ler pensamentos.
Os soberbas nasceram de um episódio semelhante, contudo, numa idade mais graúda. Não tencionava dar-lhe uma estrutura de romance, apenas aconteceu. Originalmente era um capítulo sobre uma jovem que sofria de terrores noturnos, algo que acompanha muito frequentemente a infância de quem tem muita imaginação e curiosidade sobre o oculto.


(CL) Achas que já se começa a dar mais valor ao produto nacional ou os portugueses em geral ainda estão muito agarrados ao que nos é trazido de fora?
(AF) Acho que ainda nos agarramos muito ao que é produzido no exterior. A literatura portuguesa é calejada de descrições e advérbios, fruto da mentalidade clássica que a avalia de qualidade quando é assim construída. Respeito, mas sou apologista de uma história, um enredo, uma construção íntima de personagens e uma centralização nas emoções das mesmas, e não da cor das paredes, das mesas, da minúcia do ambiente. Não quero com isto dizer que nós não damos alma à nossa criação, mas que, por vezes, fica perdida no meio de tantos adjetivos.
Parece haver também um medo, um receio de arriscar, de entregar o espírito ao romance. Há um refreamento nos comportamentos das personagens, nos seus destinos. O que é pena, pois, na vida, isso não acontece. Cada vez mais, procuramos na
ficção semelhanças com a realidade, para que possamos ser mais facilmente transportados para esses universos fantasiosos. A personagem é o nosso guia para esses mundos e é, a meu ver, o componente mais importante de uma história.
Talvez, se deixarmos de frisar tanto a importância de ler em português, as pessoas passem a fazê-lo com mais frequência, de forma natural. Não sei, mas aspiro ao levantamento da voz da literatura portuguesa.


(CL) Em Portugal começa-se a dar os primeiros passos no “fantástico” como é, na tua opinião, a aceitação do público aos autores portugueses? E no teu caso particular?
(AF) Eu sou amante do género, sempre fui.
Os géneros sofrem ciclos, assim como o género dentro do género. A teoria de que escrever sobre determinada criatura é mau, porque está saturada, está, em parte, errada. Um livro, felizmente, não existe apenas no ano em que foi escrito ou publicado. Ele fica retido nas teias do tempo e pode levantar-se a qualquer momento, desde que não haja o alheamento e conformismo do autor.
A teoria da saturação está correta se aspirarmos uma venda em massa, o que eu acredito estar, em parte, ligada ao fator sorte. Quantas vezes assistimos a histórias ganharem um sucesso estrondoso, quando há outras, do mesmo género, com maior qualidade?
No fantástico a fasquia sobe, porque, além de ser um género que não agrada a todos e estar estupidamente ligado ao público jovem, a oferta é imensa e só com insistência e paciência é que se sobrevive neste cardume.
Tenho noção de que muitos escritores se abstêm de escrever neste género, que adoram, por uma questão de receio de se afundarem. Porém, eu não o faço, nem irei fazê-lo. Haverá sempre quem adore, quem goste, quem não goste e quem deteste. Se tal não fosse, algo de muito estranho se passava.
Quanto aos leitores, quem gosta do género acaba por procurar e ler, seja estrangeiro ou português – tal como eu o faço. Se tem havido crescimento, não sei.

(CL) Como é que encaixas a escrita no teu dia-a-dia? Tens uma rotina definida ou escreves quando tens tempo livre?
(AF) Escrevo quando me sinto inspirada. Não consigo fazer nada, que obrigue a puxar pela imaginação, por rotina.
Gostava de ter um maior controlo sobre a escrita, mas, infelizmente, não tenho. As “vozes” falam constantemente, mas nem sempre o meu corpo tem vontade de as calar.
Sinto que preciso de uma certa comunhão, entre a mente e o corpo, para escrever e gostar do resultado. Já tentei fazê-lo sem essa plenitude e acabei por apagar tudo que escrevi.

(CL) Quando iniciaste o Soberba Escuridão já sabias que seria uma trilogia ou os desenvolvimentos levaram a que isso acontecesse?
(AF) Não sabia. Quando pensava no demónio, acabava por ficar indecisa com o rumo que ele iria tomar. No fim, resolvi dividi-lo em três, uma para cada livro. Porém, confesso que se deveu imenso à minha paixão por Ricardo e na necessidade de lhe dar um papel mais aceso na história.


(CL) Há personagens que se podem encaixar em pessoas que estão ou passaram pela nossa vida. Baseaste-te em pessoas reais?
(AF) As pessoas são seres muito complexos. Nem que quisesse, conseguiria transportar alguém na sua plenitude para uma personagem. Basear-me em alguém, seria demasiado, digamos, limitado, porque aquilo que eu conheço de alguém não é suficiente para caracterizar por inteiro um ser, à qual lhe darei ações e pensamentos.
Se me perguntares se me inspiro em pessoas reais? Sim, sem dúvida. Há uma procura de trechos de personalidade nas pessoas que conheço e vejo, que servirão para conjugar num ser fictício. As vivências funcionam da mesma forma. Nunca há apenas um elo de ligação personagem/pessoa, mas sim de personagem/pessoas/imaginação.


(CL) Como está o desenvolvimento do terceiro livro da trilogia? Dá para levantar um pouco a ponta do véu?
(AF) O terceiro livro será o mais sombrio dos três. Quem leu o 1º e o 2º apercebeu-se de que há uma sombra a pairar, cada vez mais forte, sobre o ambiente.
No “Soberba Tentação” já se percebe que a isto não é uma história de amor; o “Soberba Ilusão” virá confirmar.
Espera-vos surpresas, um panorama mais denso e escuro, onde parece não haver lugar para bons sentimentos e finais felizes.

(CL) Que projetos tens para depois da trilogia Soberba?
(AF) Tenho mais três histórias começadas. Duas delas entram no género fantástico e a terceira cai sobre um ambiente real, com uma carga emocional fortíssima. Um mundo que caminha lado a lado connosco.
Visto eu ser uma pessoa deveras indecisa, nem quero imaginar o momento em que fechar a trilogia e tiver de optar por uma das três histórias que gritam para passar para o papel.
Levanto o véu sobre os temas: sonhos, magia negra e amores obsessivos.

1 comentário:

  1. Boa entrevista.
    Já li o primeiro e o segundo está na estante à espera para ser lido.

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